O triunfo
Luis Fernando Verissimo
O grupo almoçava junto todas as quartas-feiras. Normalmente, era a Cidinha quem chegava com a maior novidade (“Meninas, vocês nem imaginam...”) sobre um dos seus casos, mas dessa vez foi a Maura. E a novidade da Maura era a seguinte: estava namorando um vampiro.
A primeira reação foi da Cidinha.
- Conta outra.
As outras pediram detalhes. Como, vampiro? Onde tinham se conhecido? Quando? A Maura tinha certeza de que era um vampiro? Ele já mostrara os dentes?
- Certeza, certeza não tenho - disse a Maura. - Desconfio.
E não, o Rubem (o nome dele era Rubem) ainda não mostrara os dentes, O namoro estava recém começando. O Rubem ainda nem pegara na sua mão.
- Vampiro... - disse a Cidinha, com desdém. E repetiu: - Conta outra.
Mas o resto do grupo estava interessado. O que fazia a Maura desconfiar de que Rubem fosse um vampiro?
- Para começar, ele é extremamente pálido. Branco como uma porta.
A comparação causou uma ligeira estranheza. Branco como uma porta? A Maura corrigiu. Queria dizer branco como uma porta branca.
- Grande coisa - disse a Cidinha. - Eu namorei um lituano anêmico que...
Mas ninguém queria saber do lituano anêmico da Cidinha. Queriam saber mais sobre o vampiro da Maura. Conta, Maura!
- Ele me disse que só sai da cama quando o sol se põe. Que passa a noite inteira acordado.
- Vocês se conheceram de noite?
- Num bar. Ele estava todo de preto. Aliás, só usa preto. Começamos a conversar...
- Sobre o quê?
- Generalidades. Ele é muito culto. Gosta muito de arte.
- Ih. Gay. (Cidinha).
Não, Rubem não era gay. Era sensível, mas másculo. Haviam se encontrado diversas vezes, no bar. Estavam, tecnicamente, namorando, embora ainda não tivessem se tocado. Mas isso mudaria naquele sábado. Ele a convidara para conhecer seu apartamento naquele sábado. Ele cozinharia. Ela levaria o pão. Ele só especificara: nada com alho.
A Cidinha perguntou: então é só isso? O cara é pálido e não gosta de alho, e por isso é vampiro? A Maura estava lendo livros de vampiro demais. E onde se vira, vampiro no Brasil? Vampiro era coisa de culturas avançadas. De anos de civilização... Mas no almoço da quarta-feira seguinte, a Maura apareceu com duas marcas de dentes no pescoço. E só depois de muita insistência das outras para que contasse como tinha sido, disse, com os olhos brilhando:
- Meninas, vocês nem imaginam...
Claro que um exame mais atento poderia revelar que as marcas de dentes no pescoço tinham sido feitas por qualquer objeto pontiagudo, em vez dos caninos de um vampiro, mas ninguém do grupo quis estragar o triunfo da Maura sobre a Cidinha.
BAI, BAI
Vou dar férias aos meus 17 leitores. Volto no dia 4 de novembro.
Bai, bai.
Domingo, 3 de outubro de 2010.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.